Entropia visível
20 Abril, 2008
Traduzi abaixo um trecho de entrevista de Robert Smithson. Fala de entropia, natureza e progresso, temas pelos quais se pode entrar bastante fundo no estudo da obra de Smithson. O original em inglês está disponível no site oficial da coleção de Smithson, quem quiser conferir e notar algum erro ou problema na tradução por favor avise.
“Alison Sky: Entropia na verdade não é uma metamorfose, um processo contínuo no qual os elementos estão se transformando, num sentido evolucionário?
Smithson: Sim e não. Em outras palavras, se nós pensarmos na Terra em termos de tempo geológico nós encontramos o que se chama de entropia fluvial. A geologia tem sua própria entropia, na qual tudo está se desgastando. Pode-se chegar a um ponto em que toda a superfície da Terra colida e se desmanche na forma de um processo irreversível, o que é em certo sentido uma metamorfose e, portanto, evolucionário, mas evolucionário de forma nem um pouco idealizada. Há ainda o calor da morte no Sol. Pode ser que os seres humanos sejam apenas diferentes dos dinossauros e não melhores. Em outras palavras, pode ser apenas uma situação diferente. Existe uma necessidade de tentar transcender a si mesmo. Eu não sou um transcendentalista, então eu tento ver como as coisas vão em direção a… bom, é muito difícil prever qualquer coisa; de qualquer forma todas as previsões tendem a estar erradas. Quero dizer, mesmo o planejamento. Quero dizer que planejamento e acaso parecem dar no mesmo.
Alison Sky: Eu, do ponto de vista da arquitetura, reconheço isso. Nos seus grandes planos para o mundo, os arquitetos parecem ter ‘soluções definitivas’ para todos os problemas.
Smithson: Eles não levam essas coisas em conta. Os arquitetos tendem a ser idealistas e não dialéticos. Eu proponho em uma dialética das mudanças entrópicas. Há um aspecto corrente das coisas que me fascinam, como no meu envolvimento recente com o Central Park (“Frederick Law Olmsted and the Dialetical Landscape”, Fevereiro 1973). Você vê aquela fotografia mostrando uma escavação no Central Park. Você pode chamar isso de um tipo de arquitetura, um tipo de arquitetura entrópica ou uma des-arquiteturização. Em outras palavras, não é algo que se manifeste do modo que, digamos, Skidmore Owings e Merril se manifestariam. É quase o contrário disso, de forma que você pode observar esse tipo de situações entrópicas de edificação que se desenvolvem ao redor da construção. Aquela escavação acabará por ser coberta, mas ela está lá agora com todos os seus andaimes, e as pessoas ficam confusas com essa escavação, elas acham que que tem algo a ver com o MET (Metropolitan Museum of New York). Há várias pichações atacando o Met, mas trata-se na verdade da cidade.
Sky: É irônico que nós tenhamos sido capazes de perpetuar uma atitude de soluções padrão por todo o mundo. Viajando pela Europa você pode percorrer milhas e milhas e tudo parece exatamente igual e igual a todos os outros lugares. Imitações da arquitetura de Lefrak City estão cobrindo a Terra. […]
Smithson: Eu gostaria de mencionar um outro equívoco que é essencialmente um erro de engenharia, o Salton Sea no sul da Califórnia, o maior lago do Estado. Aconteceu durante a administração de Teddy Roosevelt.
Houve uma tentativa desesperada de redirecionar o rio Colorado. O rio Colorado sempre alagava e destruía a área. Tentou-se evitar as inundações do Rio Colorado pela construção de um canal, no México, o que foi feito de maneira ilegal. Esse canal começou no delta do Colorado e foi redirecionado para Mexicali, mas quando o rio desaguou neste canal, o canal inundou e desaguou no Vale Imperial, que está abaixo do nível do mar. Então esse lago de trinta milhas de largura foi criado por um erro de engenharia e cidades inteiras foram inundadas, assim como as ferrovias, e houve grandes esforços para tentar reverter esse dilúvio, mas sem resultados. Desde então as pessoas começaram a conviver com esse lago e recentemente eu estive lá e passei um tempo em Salton City que é uma cidade de cerca de 400 pessoas. E outro exemplo de planejamento cego são os labirintos de grandes avenidas que serpenteiam pelo deserto. Surgiu a idéia de transformá-las em uma grande cidade de veraneio ou algo assim, talvez uma nova Palm Springs, mas a coisa deu tão errado que se você for lá agora você verá apenas aquelas avenidas atravessando todo o deserto, largas avenidas de concreto e algumas placas nomeando as diferentes estradas e acaso alguns acampamentos de trailers próximos à cidade. É impossível nadar no Salton Sea porque cresceram arrecifes por sobre as rochas. Pratica-se um pouco de ski aquático e pesca. Existe também o plano de de-salinar todo do Salton Sea. E há todos os tipos de projetos esquisitos para tanto. Um deles é trazer cinzas da Kaiser Steel Company e construir um sistema de diques. Então temos aqui uma espécie de efeito dominó no qual um erro resulta em outro, ainda assim esses erros são todos curiosamente excitantes para mim em certa medida – Eu não as considero deprimentes.”
Trecho de: “Entropy Made Visible” (1973). In: ROBERT SMITHSON: THE COLLECTED WRITINGS, 2nd Edition, edited by Jack Flam, The University of California Press, Berkeley and Los Angeles, California; University of California Press, LTD. London, England; 1996
27 Junho, 2008 às 4:13 pm
Gostei muito de ter encotrado esta entrevista do Smithson. Parabéns!
jc4ever
27 Junho, 2008 às 5:07 pm
Parabéns pelo site.