Introduzindo um problema com que passo a lidar, apresento uma provocação e um caso. A abordagem dessa questão oscilará entre o urbano e o midiático.
A provocação é este trecho do artigo ‘O não-lugar midiático e o local na comunicação’ de Ricardo Mello, publicado na coletânea ‘Interferências Contemporâneas; comunicação, estudos culturais e pós-moderno’ (2002, Angela Prysthon [org.], Bagaço):
“… o homem do século XXI ao qual nos referimos, em que pese suas inevitáveis conexões com o planeta plugado em centros de processamento da informação (como a internet e as agências de notícias), vive e principalmente convive em um lugar concreto, no qual está inserido. Ou seja: o usuário da antena mundial possui um locus que também se alimenta de outras fontes. Aqui, neste espaço, ele existe em dimensão diversa àquela do plano global. Situações distintas (as citadas instâncias diversas), porém não excludentes. Assim, sem fugir à sua condição de ponto – diminuto e longínguo – na cadeia terrestre, este indivíduo vive em determinada cidade, localidade, bairro, avenida ou rua.
Aceitando-se a materialidade deste ambiente local, integrado e ao mesmo tempo detentor de relativa autonomia, no sentido de ciclos próprios, cotidianos, abre-se então a porta do debate extensivo a um processo comunicativo a ele referente – de âmbito mais restrito, portanto. Não parece improcedência afirmar que encontramo-nos aqui, se sustentados na lógica dos campos sociais proposta por Pierre Bordieu, ainda que fora do universo dos grandes meios de comunicação, dentro do campo dos media. Disse Adriano Duarte Rodrigues, para conceituar este campo:
instituição de mediação que se instaura na modernidade, abarcando, portanto, todos os dispositivos, formal ou informalmente organizados, que têm como função compor os valores legítimos divergentes das instituições que adquiram nas sociedades modernas o direito a mobilizarem autonomamente o espaço público, em ordem à prossecução dos seus objetivos e ao respeito de seus interesses.
Há uma realidade dialógica e legítima, ao que se vê, no mundo exterior aos meios de comunicação de massa. Em maior ou menor grau, presume-se ser possível verificar demandas, possibilidades e fluxos informativos de nível local. Muitas vezes o que falta é canal para circulação.”
O provocativo deste trecho é que ele não só questiona a suficiência de um sistema de comunicação baseado na grande mídia, como postula sobre as características de um campo de diálogo consoante com certa identidade de agentes da sociedade civil.
O caso que merece ser pensado com essas preocupações é o projeto de Luise Ganz e Breno SIlva chamado Lotes Vagos. Pretendo discutir esse trabalho no próximo post, por hora vale sugerir a visita a dois sites:
O primeiro, um relato da última experiência da dupla, com várias fotos e causos. O segundo, é um texto de Louise sobre as forças motrizes do projeto.
Post enviado por Paulo Miyada
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