“O objetivo do grupo [Manguebit] era, na verdade, tomar toda a cidade. O movimento mangue intencionava ‘ser gerado e articulado em vários pontos da cidade em núcleos de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo (era) engendrar um ‘circuito energético’, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama’ (1).
O movimento obteve total sucesso na empreitada de mexer com a cidade:
‘Depois de vários shows e eventos bem sucedidos, e do manifesto “Caranguejos com Cérebro” (que transformou de uma hora para outra, centenas de arruaceiros inocentes em mangueboys militantes), parecia que a cidade realmente começava a despertar do coma profundo em que esteve mergulhada desde o início da guerra dos 80. Daí em diante, pode-se dizer que teve início um efetivo “renascimento” recifense. Todo mundo gritou mãos à obra! E partiu para um ataque. As ruas viraram passarelas de estilistas independentes, bandas pipocavam em cada esquina; palcos foram improvisados em todos os bares; fitas demo e clipes novos eram lançados toda semana, e assim por diante, gerando uma verdadeira cooperativa multimídia autônoma e explosiva, que não parava de crescer e mobilizar toda a cidade’ (2).
A riqueza simbólica deste trecho nos permite vislumbrar como os responsáveis pelo movimento percebiam e sentiam o que estavam produzindo. Fred 04, um dos mentores do movimento, produz em sua fala uma intertextualidade entre um discurso da evolução da produção artística, outro da evolução de uma empreitada militar, para explicar, em um terceiro discurso, o despertar da cidade de Recife.
A metáfora resultante desta combinação de símbolos é a idéia do movimento como uma força vital da juventude que, diante de um objetivo que realmente valia a pena, salvar o Recife do coma, produz o inesperado: uma enorme explosão de criatividade que não se contenta em restringir-se aos espaços que se convencionou reservar para atividades culturais, mas que atinge mais amplamente o espaço urbano, para além das divisões de classe.
Imagens como esta permitem pensar o movimento manguebit como uma estratégia de ocupação do espaço urbano pela cultura juvenil, de origem social híbrida, produzindo símbolos culturais também híbridos entre o que se poderia tradicionalmente denominar como cultura popular nacional, regional e americana.”
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Esse trecho retirado de um ensaio de Lília Junqueira sobre o Manguebit escapa do lugar comum que enquadra a obra de seus artistas como uma síntese entre regionalismo, hibridismo e informalidade (3). Ela fala do modo como uma determinada sinergia entre diversos grupos e indivíduos se estabeleceu entre Olinda e Recife durante os anos de formação do Manguebit, como foi chamado o ‘movimento’.
É preciso descontar o fato de que os ‘documentos’ utilizados por Lília para a formulação de sua hipótese são textos dos próprios agitadores dessa movimentação, os quais assumiam publicamente a inspiração na agitação jovem e urbana da cena punk descrita por Malcom Maclaren, autor de ‘Mate-me por favor’; quer dizer, esses textos não provam que de fato tenha havido tal transformação do cotidiano da cidade. Ainda assim, parece que a autora tem razão em atentar a esses discursos, pois mesmo que pouco dessa agitação tenha ganho a dimensão descrita, a concepção da produção cultural como evento de dimensão urbana, notadamente coletivo e, ainda, sincronizado aos mais avançados meios de comunicação técnico-científicos deve ter sido fundamental para a consolidação da base musical Manguebit, da mesma forma que os experimentos e celebrações musicais do período decorreram na formação de redes de troca e produção cultural, por mais precárias que fossem.
Determinar a eficiência e consistência do Manguebit como uma rede informacional informal demandaria um trabalho historiográfico de considerável envergadura. O que por hora se pode fazer com considerável segurança é, por um lado, apontar o modo como o caráter urbano da produção e difusão da música Manguebit na cidade de Recife transformou suas referências e seus conteúdos; e, por outro lado, formular a hipótese de que os próprios elementos musicais, discursivos e imagéticos empregados ou desenvolvidos nesse momento contribuíram para novos (ou, pelo menos, inesperados) usos e ocupações do espaço urbano.
(1) SCIENCE, Chico e Nação Zumbi. “Da lama ao caos”. Sony Music/ Chaos, 1994.
(2) Fred 04, citado por Paula Lima em “Uma antena parabólica enfiada na lama:ensaio de diálogo complexo com o imaginário manguebit”. Dissertação de mestrado, Antropologia, UFPE, 2000.
(3) Trecho retirado de JUNQUEIRA, Lília. “Manguebit e gentrification: relações entre cultura e espaço urbano em Recife”, In: PRYSTHON, Angela (org.). “Imagens da cidade; Espaços Urbanos na comunicação e cultura contemporâneas”. Porto Alegre: Sulinas, 2006.
* tentei também encontrar referências online interessantes sobre o assunto, mas encontrei poucas coisas interessantes. Recomendo o blog de Rejane Calazans, que dá pistas de seu estudo sobre o assunto e o breve texto quase-anedótico de Xico-Sá.
Post enviado por Paulo Miyada
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mando uma sugestão de leitura complementar, que embora focada na questão das redes informacionais, mais precisamente nas suas dinâmicas, pode muito contribuir para o entendimento da relação manguebit-cidade:
http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp242.asp
“O espaço urbano é intensamente trafegado por fluxos, e as novas tecnologias estão multiplicando rapidamente a quantidade, a qualidade e a complexidade desse tráfego. Necessariamente, a nossa percepção responderá a essa “fluidificação do espaço” assimilando novos mapas cognitivos para sintonizar essa dinâmica de enxame e lidar com ela, reconhecendo a natureza de sua interação com o espaço físico e com nós mesmos e enxergando a líquida arquitetura da sua presença, que está estruturando o espaço físico urbano desde os níveis mais concretos até os mais sutis e virtuais.
Assim, as diversas redes (físicas e digitais) não estariam em platôs dissociados, mas se interligariam umas com as outras em unidades híbridas e/ou cíbridas, nas quais a fixidez de pontos cibridamente distribuídos na malha urbana se fundiria com uma outra dinâmica fluida, a dos movimentos característicos de uma cidade”.
Muito bom esse trecho do texto recomendado pela Pri; acredito que esse tipo de articulação entre redes urbanas e redes informacionais, mediada ou não por pontos fixos, é fundamental para o consolidação de redes informais e precárias.
Acho que apenas é bom ainda lembrar que nem toda interligação entre redes específicas será sempre positiva e desejável. Outro ponto que me incomoda é a associação direta feita pelo autor com o universo do “mais remoto passado biológico”.