“O novo sentido da cidade”
“[...] As telecomunicações definiram uma outra natureza para a cidades. A interface da tela permitiu ao homem remper com as noções de superfície e com os limites físicos que definiram historicamente a cidade. O homo eletroctonicus (1) sepultou definitivamente o modelo das cidades-teatro da Antiguidade e da Renascença, pautado na dimensão espacial física do território: cidade como ‘palco’ de encontro. Com a desterritorialização propiciada pelo espaço-tempo ótico-eletrônico, a cidade redefine seu estatuto: é, sobretudo, uma experiência de mediação – telecidade ou videocidade (Virilio 1993). Nessa nova configuração da experiência urbana, não vivenciamos mais, segundo Pierre Lévy, um ‘espaço físico’, mas um espaço ‘prático’, moldado pelas possibilidades de acesso, ainda que este não seja de ordem material. Para Lévy, a sociedade contemporânea nem é mais nômade (como no Paleolítico), nem sedentária (como no Neolítico e na Antiguidade): é uma sociedade ‘móvel’ em função da intensificação dos contatos em escala planetária (2).
Do telégrafo à Internet, passando pelo telefone e pala televisão, todos os meios foram contribuindo para uma dissociação progressiva entre o lugar físico, o lugar social e o lugar semiótico (Meyrovitz, 1985). Já com a invenção do telefone, o homem criou um protótipo do ciberespaço ao forjar com a comunicação em tempo real uma nova instância de encontro (Lemos, 2004). O rádio e a televisão broadcasting, com suas transmissões em tempo real, articularam depois as dimensões individual e coletiva, criando também, a partir de dispositivos tecnológicos e estratégias discursivas próprias, um outro espaço de sociabilidade. Se a concepção de espaço esteve historicamente associada à configuração de um lugar, este lugar é (re)apresentado agora na interface da tela sob um regime da temporalidade próprio ao que é eletrônico, ao que só possui existência enquanto duração – duração forjada pela velocidade e pela luz (eletricidade). O espaço urbano – que sempre foi influenciado pelo tempo (horários, semana, feriados) – passa a ser percebido prioritariamente no e como tempo (Fechine, 1998).”
Institui-se assim um novo tipo de vivência urbana ou, nos termos de Lorenzo Vilches, dá-se uma migração simbólica entre espaço e tempo (2003:71): a mediação tecnológica configura um novo lugar. A existência de espaços físicos de interação, inerentes à vida em cidade, já não é mais um fator determinante das situações sociais, uma vê que os meios eletrônicos oferecem agora novas formas de acesso (aos locais, às pessoas, às instituições, às informações). Se o lugar físico ou social ocupado pelos sujeitos é um dos fatores determinantes do tipo de interação que se dá entre eles e se as mídias configuram-se como um lugar em que se dá grande parte da experiência urbana contemporânea, o nosso desafio agora parece evidente: precisamos identificar quais são e como os meios de comunicação constroem hoje diferentes regimes de interação. Ou, em outros termos, é preciso descrever quais os procedimentos discursivos que, ao instituírem esse novo lugar de interação, acabaram substituindo as estratégias de comunicação dependentes dos territórios físicos.
(1): Termo usado por Román Gubern, s.d.
(2): Ver Lévy, 1993, 1996.”
In: FECHINE, Yvana. “Espaço urbano, televisão, interação”, In: PRYSTHON, Angela (org.). “Imagens da cidade; Espaços Urbanos na comunicação e cultura contemporâneas”
Bibiografia citada:
FECHINE, Yvana. “Videocidades. Considerações sobre a percepção do tempo em vídeos que tematizam a cidade”. In: OLIVEIRA, A. C. e FECHINE, Yvana (orgs.). “Visualidade, urbanidade, intertextualidade”. São Paulo: Hacker Editores, 1998.
GUBERN, Román (s.d.). “Os comportamentos induzidos da iconografia eletrónica”, In: ARISTARCO, G. e ARISTARCO, T. (orgs.). “O novo mundo das imagens electrónicas”. Lisboa: Edições 70.
LEMOS, André. “Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea”. Porto Alegre: Sulina, 2ª Edição, 2004.
LÉVY, Pierre. “As tecnologias da inteligência: O futuro do pensamento na era da informação”, trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
___. “O que é o virtual?”, trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.
MEYROWITZ, Joshua. “No sense of place; The impact of electronic media on social behavior”. New York- Oxford: Oxford University Press, 1985.
VILCHES, Lorenzo. “A migração digital”, trad. Maria Immacolata Vassalo de Lopes. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
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Ciberespaço
“A introdução da Internet em meados dos anos 90 pôs em foco o termo ‘ciberespaço’, cyberspace, originalmente proposto por Gibson como um conceito da ficção científica, posteriormente relacionado à comunicação mediada pelo computador e às tecnologias de realidade virtual. Definiu-se ‘ciberespaço’ de diversas formas, por exemplo, como:
_‘realidade artificial: ciberespaço é uma realidade conectada mundialmente, sustentada, acessada e gerada por computador, multidimensional, artificial, ou ‘virtual’. (Kitchin)
_‘espaço de interatividade: interatividade entre computadores define ‘ciberespaço’… ‘ciberespaço’ não é necessariamente um espaço imaginário — é real o bastante uma vez que é o espaço formado por aqueles que usam computadores para se comunicar.’ (Batty)
_‘espaço conceitual: o espaço conceitual que as tecnologias de informação e comunicação envolvem, mais do que a tecnologia em si.’ (Dodge and Kitchin)
Essas três definições, criadas nos anos que permeiam o fim da década de 90 e início dos 2000, sugerem que com o rápido desenvolvimento dos sistemas de informação, a definição de ‘ciberespaço’ vai se tornando mais abrangente. O que há de comum entre essas três definições de ciberespaço é que a noção de espaço foi utilizada de forma metafórica, referindo-se a uma entidade virtual nova que provém do desenvolvimento dos computadores e dos sistemas de informação. Shields referiu-se a uma ‘contemporânea relação de deslocamentos entre o virtualmente real e o material’; Crang defendeu ‘o virtual como espacial’, e que ‘o virtual não é só algo que opera através do espaço, mas que tem em seu centro um fenômeno espacial.’ — ou seja, o ciberespaço era reconhecido como um espaço que toma forma material (metaforicamente, já que o ciberespaço não pode se tornar uma entidade materializada). Por outro lado, o ciberespaço pode ser visto como algo imbricado no espaço físico: ‘o espaço eletrônico está imbricado e entrelaçado com o espaço físico e o lugar.’ (Li)
(…) A escala geográfica do ciberespaço é complexa. Ele mede em escala global, mas também pode apresentar visualmente imagens e informações locais. Quando avaliado da perspectiva da experiência pessoal, o ciberespaço oferece ‘uma experiência humana diferente quanto à forma de residir no mundo; novas articulações de perto e longe, presente e ausente, corpo e tecnologia, de si e do entorno.’ (Crang)
A navegação e a manipulação do ciberespaço na Internet envolve uma experiência metafórica do espaço por meio da ampla utilização da linguagem, ferramentas e símbolos geográficos, como ‘homepage’, ‘surfar’, ‘navegar’, ‘site’, e ‘cursor’ etc. (…) Antes da introdução da Internet, Harvey escreveu sobre as interdependências entre espaços imaginários e os reais: ‘os espaços de representação, [conseqüentemente,] têm o potencial de afetar não somente a representação do espaço mas também de atuar como uma força produtiva material no que diz respeito às práticas espaciais.’ “
Esse é um trecho do artigo de A. Kellerman traduzido livremente por mim; o texto integral vai muito mais afundo na classificação do ciberespaço em diferentes categories, a da informacão e a da comunicação. No original ainda existe uma tabela divertida sobre as diferenças entre espaço real e virtual em diversas dimensões. O site onde há o texto na íntegra, contudo, exige um registro um pouco chato. Então, publicizei um log in para facilitar o acesso. Ao abrir o link para o texto, que é:
https://www.informaworld.com/smpp/section?content=a791829932&db=all&fulltext=713240928
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