‘Privado de limites objetivos, o elemento arquitetônico passa a estar à deriva, a flutuar em um éter eletrônico desprovido de dimensões espaciais, mas inscrito na temporalidade única de uma difusão instantânea. (…) o espaço contruído participa de uma topologia eletrônica na qual o enquadramento do ponto de vista e a trama da imagem digital renovam a noção de setor urbano.”

 

Essa topologia eletrônica a que se refere Paul Virilio em O Espaço Crítico seria responsável pelo desaparecimento das cidades. A velocidade de informação na era digital, de atualização permanente, se contraporia à fisicidade do espaço urbano. Essa desterritorialização e supressão de limites, daria margem a representação de um espaço fracionado, heterogêneo, condicionadas pela alteração da relação do homem com o espaço/tempo.

A transposição de distâncias, sob nova lógica temporal, do imediatismo, da instantaneidade, traz implicações na configuração espacial das cidades, novas formas de relações sociais e principalmente, uma noção distinta de proximidade:

 

“(…) no final do século XX é a vez do espaço urbano perder sua realidade geopolítica em benefício único de sistemas instantâneos de deportação cuja intensidade tecnológica perturba incessantemente as estruturas sociais; deportação de pessoas no remanejamento da produção, do face a face humano, do contato urbano para a interface homem/máquina.”

“A atual polêmica em relação ao MEDIAS, que surge aqui e ali em função de determinados acontecimentos políticos e de sua comunicação social, envolve igualmente a expressão arquitetural, (…), na medida em que está sofrendo a repercussão direta ou indireta dos diversos “meios de comunicação”. (…) O espaço construído não o é exclusivamente pelo efeito material e concreto das estruturas construídas, da permanência de elementos e marcas arquiteturais ou urbanísticas, mas igualmente pela súbita proliferação, a incessante profusão de efeitos especiais que afetam a consciência do tempo e das distâncias, assim como a percepção do meio.

Esta desregulamentação tecnológica dos diversos meios é também “topológica” na medida em que constrói não mais um caos sensível e bem visível, mas, ao contrário e paradoxalmente, produz uma ordem insensível, invisível (…) Hoje é até mais provável que aquilo que persistimos em denominar URBANISMO seja composto/decomposto por estes sistemas de transferência, de trânsito e de transmissão, estas redes de transporte e transmigração cuja configuração imaterial renova a da organização cadastral, a da construção de monumentos.(…)

Evidente que não se trata aqui de um julgamento maniqueísta opondo a física à metafísica, mas somente de tentar vislumbrar o status da arquitetura contemporânea, em particular da arquitetura urbana, em meio ao desconcertante concerto das tecnologias avançadas.

Virilio argumenta que a arquitetura sofre um processo de regressão que acompanha a decadência das grandes aglomerações. Esse processo, hoje, resultaria na associação da arquitetura a uma técnica subsidiária, “ultrapassada por aquelas que permitem o deslocamento acelerado”, como a engenharia.

Na seqüência, Virilio indaga: “Estaria a arquitetura urbana prestes a se transformar em uma tecnologia tão ultrapassada quanto a da agricultura extensiva?” “A decadência de diversas metrópoles não seria o indício do declínio industrial e do desemprego forçado?”

 

O pessimismo latente de Virilio frente às evoluções tecnológicas em curso e seus desdobramentos põe em questão os meios de proposição e atuação profissional plausíveis. Longe de esgotar o tema, redijo abaixo um trecho de uma entrevista dada ao site Trópico, na qual, já no seu fechamento, Virilio discorre sobre as implicações da atuação profissional hoje.

 

 

“Trabalhar com a cidade, significa trabalhar com o espaço e o tempo, logo com a velocidade. Com a Revolução Industrial e com a revolução dos transportes, as cidades tornaram-se caixas de velocidade. As residências não alojam apenas homens, objetos, produtos, pessoas, mas proximidade social, interferências, dimensões energéticas. Com as novas técnicas de transmissão – do rádio à internet – só se aumentou a velocidade de contato.

Ser urbanista hoje exige uma inteligência dromológica, capaz de compreender a velocidade e a aceleração. Em grego, “dromos” significa corrida. A palavra “rua” está na raiz de “corrida”, como “dromos”. Ser urbanista implica compreender que a cidade é traçar, povoar, construir, pôr em movimento. Tenho refletido sobre a importância da velocidade nas cidades e nas relações sociais. Para isso, estabeleci a dromologia, a disciplina que estuda a velocidade como meio político.

(…)O mundo moderno vive a revolução da aceleração. Não posso estar alheio a ela. Chegamos à velocidade absoluta, a da luz, na cibernética, pela qual ondas eletromagnéticas, ainda que custe caro, podem estabelecer relações interpessoais na velocidade da luz. A cibernética tende para a criação do “live” por tudo e para todos. É isso a interatividade. É a tensão, a perspectiva, da criação de algo inacreditável, para o qual as sociedades antigas não estavam preparadas, pois só conheciam velocidades relativas, a do cavalo, por exemplo, tendo a invenção da cavalaria sido uma revolução.

Da corrida de cavalos, da dromocracia, até agora estávamos na velocidade relativa. Com a revolução da velocidade da luz, da cibernética, da informática, da telemática, chegamos à velocidade absoluta. Pela primeira vez na história, o homem toca um limite cósmico. Não é mais o limite da superfície terrestre, dado que vamos à lua, mas o cósmico. Esse fenômeno exige, para ser compreendido, uma economia política da velocidade, um complemento à economia política da riqueza elaborada por François Quesnay e os fisiocratas. Eu sou uma espécie de fisiocrata urbanista que fala da necessidade dessa economia política da velocidade, de onde a rejeição à cibernética. A velocidade da luz não pode tornar-se uma fatalidade terrorista.”

 

 

VIRILIO, Paul. “A Cidade Superexposta”, In: “O Espaço Crítico”; São Paulo: Editora 34, 1993.

 

 

Entrevista integral:

http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/170,1.shl

 

 

Sugestão de bibliografia complementar:

Espaço & Debates. Revista de Estudos Regionais e Urbanos. Temporalidade. São Paulo, Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XI, n. 33, 1991

 

Post enviado por Priscyla Gomes



One Response to ““O novo sentido da cidade” ii”  

  1. 1 Vinicius Aguiari

    Olá pessoal do cosmopista,
    estou realizando uma reportagem literária sobre o edificio 14 Bis, na Rua Paim, e gostária de entrar em contato com o Gabriel, confirmar a informação que o 14 Bis foi desenvolvido pelo avô dele, se é possível levantar alguns dados sobre o projeto,
    meu email é o viniciusaguiari83@yahoo.com.br
    muito obrigado
    abraço
    Vinicius


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