“Do 110o andar do World Trade Center, ver Manhatan. Sob a bruma varrida pelo vento, a ilha urbana, mar no meio do mar, acorda os arranha-céus de Wall Street, abaixa-se em Greenwich, levanta de novo as cristas de Midtown, aquieta-se no Central Park e se encapela enfim para lá do Harlem. Onda de verticais. A gigantesca massa se imobiliza sob o olhar. Ela se modifica em texturologia onde coincidem os extremos da ambição e da degradação, as oposições brutais de raças e estilos, os contrastes entre os prédios criados ontem, agora transformados em latas de lixo, e as irrupções urbanas do dia que barram o espaço. Diferente neste ponto de Roma, Nova Iorque nunca soube a arte de envelhecer curtindo todos os passados. Seu presente se inventa, de hora em hora, no ato de lançar o que adquiriu e de desafiar o futuro. Cidade feita de lugares poroxísticos em relevos monumentais. O espectador pode ler aí um universo que se ergue no ar. Ali se escrevem as figuras arquitetônicas de coincidatio oppositorium antigamente esboçadas em miniaturas e texturas místicas. Neste palco de concreto, de aço e vidro, que uma água fria corta entre dois oceanos (o atlântico e o americano), os caracteres mais altos do globo compõem uma gigantesca retórica de excessos no gasto e na produção.”

In: CERTEAU, Michel de, “A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de Fazer”. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, p. 169-70. (Original de 1980)

 

Post enviado por Paulo Miyada



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