Mais uma referência ainda a Michel de Certeau, dessa vez sobre a escritura. Escrever, como falar, depende da habilidade de alguém manipular um conjunto de regras – valendo-se de seu repertório – para tentar aproximar-se de um objetivo próprio; como um jogo.
Ou não, avisa Certeau, há uma grande diferença, que surge justamente na relação com a exterioridade da texto e do jogo.
“Mas então, o que é escrever? Designo por escritura a atividade concreta que consiste, sobre um espaço próprio, a página, em construir um texto que tem poder sobre a exterioridade da qual foi previamente isolado. Neste nível elementar há três elementos decisivos.
Primeiro, a página em branco: um espaço ‘próprio’ circunscreve um lugar de produção para o sujeito. Trata-se de um lugar desenfeitiçado das ambigüidades do mundo. Estabelece o afastamento e a distância de um sujeito em relação a uma área de atividades. Oferece-se a uma operação parcial mas controlável. Efetua-se um corte no cosmos tradicional, onde o sujeito era possuído pelas vozes do mundo. Coloca-se uma superfície autônoma sob o olhar do sujeito que assim dá a si mesmo o campo de um fazer próprio. Gesto cartesiano de um corte instaurador, com um lugar de escritura, do domíniio (e isolamento) de um sujeito diante de um objeto. Diante de sua página em branco cada criança já se acha posta na posição do industrial ou do urbanista, ou do filósofo cartesiano – aquela de ter que gerir o espaço, próprio e distinto, onde executar um querer próprio.
Em segundo lugar, aí se constrói um texto. Fragmentos ou materiais lingüísticos são tratados (usinados, poder-se-ia dizer) neste espaço, segundo métodos explicitáveis e de modo a produzir uma ordem. Uma série de operações articuladas (gestuais e mentais) – literalmente é isto, escrever, – vai traçando na página em branco as tragetórias que desenham palavras, frases e, enfim, um sistema. Noutras palavras, na página em branco, uma prática itinerante, progressiva e regulamentada – uma caminhada – compõe o artefato de um outro “mundo”, agora não recebido, mas fabricado. O modelo de uma razão produtora não inscreve-se sobre o não lugar da folha de papel. Sob formas múltiplas, este texto construído num espaço próprio é a utopia fundamental e generalizada do Ocidente moderno.
Um terceiro elemento: esta construção não é apenas um jogo. Sem dúvida, em toda sociedade, o jogo é um teatro onde se representa a formaliade das práticas, mas tem como condição de possibilidade o fato de ser distinto das práticas sociais efetivas. Pelo contrário, o jogo escriturístico, produção de um sistema, espaço de formalização, tem como ’sentido’ remeter à realidade de que se distinguiu em vista de mudá-la. Rwm como alvo uma eficácia social. Atua sobre a sua exterioridade. O laboratório da escritura tem como função estratégica: ou fazer que uma informação recebida da tradição ou de fora se encontre aí coligida, classificada, imbricada num sistema e, assim, transformada; ou fazer que as regras e os modelos elaborados neste lugar excepcional permitam agir sobre o meio e transformá-lo. A ilha da página é um local de passagem onde se opera uma inversão industrial: o que entra nela é um ‘recebido’, e o que sai dela é um ‘produto’. As coisas que entram na página são sinais de uma ‘passividade’ do sujeito em face de uma tradição; aquelas que saem dela são as marcas do seu poder de fabricar objetos. No final das contas, a empresa escriturística transforma ou conserva dentro de si aquilo que recebe do seu meio circunstancial e cria dentro de si os instrumento de uma apropriação do espaço exterior.
Ela estoca aquilo que vai selecionado e se dá os meios de uma expansão. Combinando o poder de acumular o passado e de conformar a seus modelos a alteridade do universo, é capitalista e conquistadora. [...]“
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Uma ressalva que cabe fazer aqui é que, para Certeau, relato oral e escritura não são práticas coincidentes. Neste caso, sobretudo em relação às respectivas funções estratégicas, uma ‘tradução inter-semiótica’ torna-se uma tarefa de grande complexidade.
Post enviado por Paulo Miyada
Filed under: linguagens e mídias audio-visuais, narração e debate sobre espaço público | 3 Comments
Tags: escritura, linguagem, michel de certeau, texto
Oi Paulo,
aqui vai um recorte muito interessante feito pelo gabriel pedrosa de um texto do huizinga:
“(…)o jogo distingue-se da vida “comum” tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa. é esta a terceira de suas características principais: o isolamento, a limitação. é “jogado até o fim” dentro de certos limites de tempo e de espaço. possui um caminho e um sentido próprios. (…) a limitação no espaço é ainda mais flagrante do que a limitação no tempo. todo jogo se processa e existe no interior de um campo previamente delimitado, de maneira material ou imaginária, deliberada ou espontânea.(…)”
… e de fato, a língua falada e a escrita, são códigos que podemos considerar distintos, cada um com suas próprias regras, com seu próprio tabuleiro…
Olá Joca,
Não reparei em nenhuma citação direta, mas apostaria bom dinheiro que Certeau leu com algum cuidado os textos de Huizinga.
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ao me deparar com essa “função estratégica” da escritura, função de ação sobre uma exterioridade, remeti imediatamente ao exercício de que me falou, de descrição escrita do corte de um edifício; sobretudo na versão em que o texto procura descrever linha por linha, ângulo por ângulo, a constituição do desenho…