Há vários meses, inseri neste blog dois trechos do vídeo Ici et Ailleurs, de Jean Luc Godard, Jean Pierre Gorin e Anne-Marie Melville.Voltei agora a esses trechos porque um lapso de memória me dizia que em um deles a voz de Godard denunciava o modo como aquilo que está detrás da câmera nunca se deixa ver, problema que agora me interessa. Essa linha não está em nenhum dos textos, mas é possível pensar nela assim mesmo. Numa primeira visada, a denúncia parece voltar-se aos cineastas que, escondidos por trás das câmeras, se dedicam a construir discursos com a voz dos outros. Mas o próprio filme dá elementos para levar mais longe essa consideração.

É possível que uma câmera revele o que está atrás de si? Parece-me uma incumbência complicada, que pode ganhar ares de armadilha. Por exemplo, quando o cineasta aparece em cena, ele mostra o que deveria estar detrás da câmera, como o mágico que mostra que sua caixa está vazia, ele faz uma promessa de sinceridade. Mas em seguida o cinegrafista desliga a câmera e o cineasta leva o filme, ou o vídeo, para a sala de montagem, voltando a aparecer, como por mágica, detrás das máquinas de imagens. Felizmente, a contradição não se limita a esse exemplo óbvio e banal, e é possível um estudo mais detido para aprofundá-la.

Minha proposta para os próximos 14 dias é dar um pontapé nesse estudo, pela analise do que se passa detrás da câmera em alguns filmes, escolhidos de forma bastante arbitrária, selecionando trechos para comentar o processo. O cinema não é como a serigrafia de recorte ou a xilogravura, cujas impressões são indícios do que se escolheu arracar fora, como moldes negativos; o fora de campo do cinema é muito vasto, ele está no espaço do set de filmagem, ele está no tempo em que o filme foi realizado, na profundidade da imagem filmada, na borda da tela do vídeo ou do limite da projeção, nos sons que se perdem na captação e edição do áudio, etc.

Para uma primeira análise, trabalho com os dois trechos de Ici et Ailleurs disponíveis no blog.

No primeiro deles, que vai do minuto 20 ao 23, a voz de Godard demonstra por absurdo o modo de construção do discurso e da imagem cinematográfica. O vídeo começa colocando lado a lado os tópicos do discurso que iriam compor o filme Victoire, projeto do grupo Dziga Vertov sobre a revolução palestina que nunca foi concluído, e, em seguida, avisa que no cinema nós nunca veríamos esses tópicos em conjunto, pois os filmes funcionam como processos aditivos em que uma imagem substitui a outra deixando traços limitados na memória, como sequências de imagens em cascata.

A importância do tempo para esse processo de sequenciamento de imagens, sons e discursos é um dos motes centrais do vídeo Ici et Ailleurs. Não sei se Godard faz referência a alguma bibliografia quando fala de tempo e espaço, mas sua formulação é bastante direta: “E, no total, é o tempo que substitui o espaço e fala no seu lugar. Ou antes… é o espaço que é registrado sobre o filme, de uma outra forma. De fato, não há mais espaço, mas uma espécie de tradução,uma espécie de sentimento que se tem desse espaço, ou seja, o tempo e o filme, ou seja, imagens em linha revelam através dessa série de imagens a minha dupla identidade, espaço e tempo, encadeados um ao outro, como dois trabalhadores sobre a linha de montagem onde cada um é, por sua vez, a cópia e o original do outro.

A afirmação ganha ar de enigma, pois para cada significado que se dê para a palavra espaço haverá leituras diferentes. Entendo que o mais interessante no caso seria pensar no espaço como lugar, no sentido atribuído por Michel de Certeau; nesse caso o que teria sido substituído pelo tempo seria o espaço enquanto distribuição momentânea de objetos, cada um em seu lugar próprio e em relação de coexistência: o cinema não poderia nos mostrar esse espaço de localização porque só pode mostrar uma coisa seguida de outra, apenas sugerindo suas posições e distâncias. Para Certeau, a relação entre lugar e tempo se realiza no espaço, quer dizer, no lugar praticado por ações, eventos, movimentos e deslocamentos; nesse caso, a imposição do tempo como variável seria condição primeira para a passagem de um lugar para um espaço. Até aí, a constatação feita por Godard de que no cinema o registro do espaço é substituído por sua intuição no tempo seria convergente com a formulação de Certeau, pois a própria realização do filme é um modo de praticar o lugar e situá-lo no tempo. O problema é que na hipótese de Certeau, o cinema, como todo relato, poderia também operar um jogo de reordenação das localizações próprias de cada objeto, o que, para Godard, não é mais possível.

Isso porque o vídeo não apenas suplanta a possibilidade de leitura do lugar; o segundo trecho, que vai do minuto 37 ao 42, começa dizendo: “Nós somos, pouco a pouco, substituídos por cadeias ininterruptas de imagens escravas uma das outras, cada imagem em seu lugar, assim como cada um de nós em seu lugar… Numa cadeia de eventos na qual perdemos todo o nosso poder“. Pelo encadeamento ininterrupto de imagens, uma pessoa pode ser substituída por imagens, assim como o espaço pode ser substituído pelo tempo. Para Certeau, as relações de coexistência entre os objetos dispostos em seus lugares ficam mais ou menos em suspenso na duração das ações e movimentos presentes, e essa suspensão pode passar para outro plano conforme um relato reorganiza cada coisa em seu lugar. Para Godard, o relato-cinema não reposiciona cada coisa em seu lugar, pois ele encadeia apenas imagens. Assim, o evento visto no cinema é um acontecimento subtraído da parcela de lugar que compõe o espaço, o que, no contexto do vídeo Ici et Ailleurs, é um acontecimento sobre o qual nós, os espectadores, não temos nenhum poder.

Pois bem, onde aparece então o detrás da câmera? Bem, ele justamente não aparece. Mesmo quando a câmera filma a si mesma e aos realizadores do filme atrave’s de um espelho, o lugar próprio do detrás da câmera está protegido, distante e ausente das imagens. Extrapolando o discurso apresentado em Ici et Ailleurs, pode-se dizer que o detrás da câmera existe e é problemático, mas apenas no momento da realização do filme, na duração da filmagem mesma enquanto prática do lugar. A coleção de exemplos problemáticos mencionados no segundo trecho do vídeo corrobora essa hipótese, ao enfatizar as contradições presentes nas direções vindas do detrás da câmera ali no momento das filmagens.

***

A análise do vídeo Ici et Ailleurs escapa da metodologia que espero empregar para os próximos textos, pois acabou concentrando-se excessivamente ao texto narrado por Godard. Quem sabe adiante seja possível voltar ao vídeo ou a outro trabalho de Godard através de outra abordagem.

 

Post enviado por Paulo Miyada



5 Responses to “o detrás da câmera, aqui ou ali?”  

  1. O detrás da câmera da metalinguagem é a ficção mais pura? :)

  2. 2 Gabriel Kogan

    Talvez ‘Las Meninas’ de Velázquez seja já um comentário sobre essa questão. O quadro a partir do qual Foucault abre seus Palavras e as Coisas, é comentado nesse texto que segue por Ferreira Gullar:

    As meninas

    O quadro está de costas e está de frente: de costas para você (que o vê por trás ao lado esquerdo) e de frente para Velázquez que o pinta. Mas a verdade é que está de frente para você e já pintado. Aliás, desde 1656. Não obstante, Velázquez (você o vê) o está pintando.

    Aparentemente, você está atrás do quadro e de frente para o pintor, que tem ao lado o seu motivo: a princesa e as damas de companhia, que ele pinta. Mas não as pinta diretamente: pinta a imagem delas refletida no espelho -um espelho que não se vê, de cuja existência se sabe apenas pelas coisas que reflete: o pintor, as meninas e as mulheres, o cão e também, lá no fundo, um homem que se detém numa escada; ao seu lado, refletidas noutro espelho pequeno, as imagens do rei e da rainha, que entraram na sala, no outro extremo do aposento, fora de nossa vista.

    Assim, o quadro contém o que se vê e o que não se vê, num jogo de espelho e de espaços e tempos. É o quadro dentro do quadro, imagens de imagens. Realidade e ilusão que se confundem. Miragem, pintura…
    Um momento da vida, mínimo episódio da história humana -pessoas que, numa sala, posam para um pintor que as retrata- ali na Espanha, num certo dia do século 17. E parece uma visão irreal esta cena real (com sua luz doce) que Velázquez fixou na tela para sempre. Mas que, na vida, se desfez naturalmente em seguida, como qualquer outra, entre palavras e risos talvez.

    Ferreira Gullar

  3. 3 paulo miyada

    Acho que las meninas provoca em qualquer um o efeito de uma mirada para o abismo. Mesmo para quem nunca ouviu falar que há ali um ou mais espelhos, mesmo para quem está diante de uma reprodução 5×10.
    Por aí, o cinema é duas vezes herdeiro da pintura de Velázquez. Primeiro, na chave da construção, é herdeiro dessa espécie de força magnética que expulsa sempre o detrás da câmera (da tela) para o lado oposto de sua representação; e aí não importam quanto espelhos, quantas imagens em quantas representações do autor e do que há em suas costas, ele estará sempre fora e atrás. E segundo, na chave da concepção e do usufruto, é herdeiro da vertigem provocada pela mirada em abismo sobre os rastros tensos deixados pelas repetidas expulsões do detrás da câmera (da tela) para trás da obra.

  4. 4 paulo miyada

    outra, para não colocar mais uma reprodução 5×10 do quadro, uma imagem em alta resolução, embora pichada pelo museu do prado: http://www.museodelprado.es/imagen/alta_resolucion/P01174.jpg


  1. 1 o detrás da câmera, interlúdio « cosmopista

Leave a Reply