“Que o cinema seja o meio por que me expresso, é absolutamente natural. Fiz-me compreender numa língua que passava ao lado da palavra de que carecia, da música que não sabia tocar, da pintura que me deixava indiferente. Subitamente tive a possibilidade de me corresponder com um mundo numa linguagem que literalmente fala da alma para a alma, em termos que, quase de maneira voluptuosa, escapam ao controle do intelecto.
Literatura, pintura, música, cinema e teatro são artes que geram e se nutrem de si próprias. Mutaçoes, novas combinações aparecem e desaparecem, o movimento, visto de fora, mostra uma vitalidade constante. É o entusiasmo grandioso dos artistas que, para eles mesmos e para um publico cada vez mais distraído, projetam a imagem de um mundo que já não pergunta o que é que eles acham ou pensam. [...] a arte é, de modo geral, livre, atrevida, irresponsável e, como disse: o movimento é intenso, quase febril, se assemelha, me parece, a uma pele de cobra repleta de formigas. A cobra está morta há muito tempo, comida, desprovida do seu veneno, mas a pele se mexe, cheia de uma vida misteriosa.
Estou convencido de que sobre este assunto outras pessoas têm uma opinião mais equilibrada e objetiva que a minha. Se eu agora, considerando todas essas amolações, apesar de tudo, afirmo que quero continuar a fazer arte, a explicação é muito simples.
A razão por que continuo tem a ver com minha curiosidade. É ilimitada, nunca se satisfaz, renova-se constantemente, é insuportável, empurra-me para a frente, sem me conceder tranqüilidade nenhuma. Além de substituir totalmente a fome de ter amigos que eu sentia.
Tenho a sensação de ser um preso que, recluso há muitos anos, de repente é atirado para o tumulto da intensidade da vida. E logo se apodera de mim uma curiosidade imperiosa. Tomo notas, observo, mantenho os olhos bem abertos, tudo me surge irreal, fantástico, amedrontador ou ridículo. Apodero-me então de um grão de tudo isso, talvez nele haja um filme. [...] Passo a andar com tal grãozinho, por mim fabricado e a que deitei mão, sentindo-me alegre e melancolicamente ocupado. Sou empurrado pelas outras formigas, estamos todos realizando um trabalho colossal. A pele de cobra se mexe. Isto, apenas isto, é a minha verdade. Não exijo, claro, que também o seja para qualquer outra pessoa e, como consolo para a eternidade é, evidentemente, muito pouco.
Ser artista para seu próprio prazer nem sempre é assim tão agradável como se julga. Embora nisso haja uma grande vantagem: o artista partilha condições em que vive com outras pessoas que também existem somente para si próprias. Disso tudo resulta provavelmente uma considerável irmandade, a qual, desse modo, vive numa comunhão egoísta neste nosso mundo quente e sujo, sob um céu frio e vazio.”
será?
“A pele da serpente” prefácio do argumento do filme “Persona” in BERGMAN, I. “Imagens“.
Post enviado por Priscyla Gomes
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Tags: bergman, controversias
me pergunto o que o uso da palavra ‘ato’ no lugar de ‘processo’ de criação tem a dizer sobre os trechos selecionados para essa série. se fosse processo a palavra teriam de ser outros, não?