futebol, tropicália e elétrons
“Um episódio: durante a Copa de 1998, na França, a Rede Globo promovia, após os jogos, os tradicionais debates entre comentaristas, jogadores-comentaristas, juízes-comentaristas e personalidades variadas. Numa delas, votava-se sobre a existência ou não de um pênalti no caso de uma falta cobrada contra o Brasil em que Dunga, na barreira, teria posto a mão na bola dentro da área, aproveitando-se da velocidade desta, em lance só perceptível, com algum custo, na repetição em câmara lenta. Os ex-jogadores em geral votavam pelo pênalti, disputando entre si a condição de analistas não ambíguos, capazes de ‘não ficar no muro’ (mesmo que a univocidade de uma interpretação inequívoca ficasse mais uma vez prejudicada pela própria multiplicidade das interpretações). Gilberto Gil, presente, postulou então a idéia, no mínimo insólita naquele contexto, de que a objetividade no futebol é relativa à percepção possível dos fenômenos, inseparável da sua realização no tempo e nas condições da partida, e que, portanto, uma infração não existe ‘objetivamente’, na realidade ou na máquina que a registra, mas somente na fração de tempo em que ela é passível de ser captada em jogo. Em outras palavras, o fenômeno observado inclui necessariamente, poderíamos dizer, o observador, e a definição do choque entre a mão de um jogador postado na barreira e a bola em alta velocidade, referida à probabilidade de uma intenção, passaria a ser tão complexa como a definição da posição de um elétron e sua caracterização como partícula e onda.
O argumento do autor de Quanta, que parece não ter sido acompanhado pelo seleto e positivista grupo de craques, reedita, em novas bases, aquele princípio rodriguiano de que ‘o videoteipe é burro’: o jogo acontece mesmo é em sua dimensão irrepetível, quando o que se sabe é inseparável do que não se sabe…”
In: José Miguel Wisnik, “Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil”. Companhia da letras: São Paulo, 2008
Post enviado por Paulo Miyada
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“Quanta do latim
Plural de quantum
Quando quase não há
Quantidade que se medir
Qualidade que se expressar
Fragmento infinitésimo
Quase que apenas mental”
Pois é. Desde que li esse trecho do wisnik, procuro o vídeo dessa discussão que só pode ter sido fantástica…
Continuo procurando.