
Lá pelo minuto 28 do filme Passion (1982), aparece uma breve cena em um café, na qual um pai faz um ditado para a filha pequena, que escreve. O ditado é assim:
“A filha: Papai, porque as coisas têm contorno?
O Pai: Querida, eu não tenho certeza, você está falando de quais coisas?“
Isso leva uns 14 segundos, e não está claramente ligado ao que acontece antes ou depois no filme… é um micro-episódio, uma situação anexa que pode muito bem passar despercebido, ainda que se destaque por ser um dos raros momentos em que os diálogos deste filme versam diretamente sobre os problemas da percepção visual e das convenções das representações pictóricas.
Diálogos como esses são recorrentes nos filmes de Godard e são um dos elementos criticáveis de sua obra, pelos que preferem sempre que todos os elementos do roteiro estejam ‘amarradinhos’ e pelos que sentem cheiro de arrogância e superficialidade nos argumentos assim brevemente expostos. Defendo aqui esses diálogos como elementos discursivos eficazes e provocadores, pequenos discursos que perguntam mais do que respondem e que tendem a ser ignorados, mas que também podem ficar marcados na memória do espectador à espera de emergirem em uma ocasião futura.
Comigo o ditado do pai à filha sobre uma pergunta de uma filha a um pai funcionou assim. Achei a passagem boa, mas depois de alguns dias a esqueci; há pouco lia um livro como lição de casa auto-imposta e trombei com uma passagem que poderia servir de resposta à filha do ditado, se o pai do ditado gostasse de agir como um professor:
“a) Formas, bordas visuais, objetos: todas as experiências confirmam esta idéias (de bom senso) de que são as bordas visuais presentes no estímulo que fornecem a informação necessária à percepção da forma. Particularmente, inúmeros dispositivos destinados a produzir luzes homogêneas, sem bordas, demonstram a incapacidade não só de perceber formas, mas até de, simplesmente, perceber” [AUMONT, Jacques. “A Imagem”. São Paulo: Ed. Papirus, 1993. p. 68].
O interessante está em que a descoberta de uma possível resposta para a filha deixa mais interessante a (não) resposta do pai do ditado dentro do filme. Se as coisas só são percebidas em relação a seus contornos visuais, tudo que vemos só é percebido porque tem contorno. No entanto, se você isolar um objeto e perguntar porque ele tem contorno, você encontrará o vazio, uma vez que as coisas não têm contornos senão em relação ao seu contexto. E, portanto, nada mais preciso do que responder perguntando sobre ‘quais coisas’ estão sendo analisadas.
Quer dizer, do ponto de vista de quem encontrou uma possível resposta ao diálogo apresentado no filme, chego à conclusão de que o conteúdo encontrado estava já dentro do ditado do pai para a filha, apenas omitido por uma elipse.
Se o exemplo não convence, passo a um outro. Em determinado momento do filme, alguns minutos após o ditado do pai, uma garota desempregada interroga uma trabalhadora da fábrica:
“garota: – Eu gostaria de fazer uma pergunta.
trabalhadora: – Por favor.
garota: – Às vezes eu assisto filmes ou a televisão e eles não mostram nunca o trabalho das pessoas. Você sabe porque?
trabalhadora: – É proibido filmar nas fábricas.
garota: – Então eu tinha razão.
trabalhadora: – Sobre o quê?
garota: – Eu me disse que no fundo o trabalho é igual ao o prazer.São os mesmos gestos, no trabalho e no sexo. Não necessariamente no mesmo ritmo, mas são os mesmos gestos“.
Amor e trabalho são a mesma coisa, só muda o ritmo. Esse mote me impregnou de maneira muito forte. E quanto mais penso no amor e no trabalho, mais significados distintos o mote pode adquirir. Talvez esse mote te impregne também.

Post enviado por Paulo Miyada
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