“A doença me reduziu à condição de poeta: ora, era arquiteto que eu pretendia ser. A arquitetura me seduzia por tudo o que não é arte nela: geometria, engenharia, higiene, senso prático da vida, o gosto de distribuir. Eu não tinha certeza de vir a construir belos edifícios, estava, porém, seguro de projetar casas cômodas. Uma casa cômoda! Uma casa bem apropriada às necessidades de uma família, o ambiente afetuosamente preciso para essa cousa sempre comovente que é toda vida humana… Fazer a casa para o amor da gente, então isso me parecia naquele tempo o cúmulo da finalidade artística. Pobres poetas! Um poema pode envolver espiritualmente uma alma no espaço de alguns minutos: a casa envolve-a de todas as maneiras, possui e é possuída, imagem daquilo que mais deseja um coração ciumento: a habitação. Digam o que disserem, a verdade é que não há poema habitável…

E depois haveria sempre a esperança da beleza. Já disseram que a beleza em arte não deve ser um fim porque na realidade é uma consequência. Conceito profundo que me parece resumir todas as estéticas. Em arquitetura, então. Essa verdade andava quase inteiramente esquecida. Não sei como, formou-se a idéia de que arquitetura é a arte de fazer fachadas bonitas. Ainda pouco se viu no Congresso Pan-Americano de Arquitetos que a maioria procede sob inspiração desse preconceito estético erradíssimo. Pau nos engenheiros sem poesia! Houve quem sustentasse que o verdadeiro arquiteto, o artista, não se deve preocupar senão com a beleza, acima das questões materiais de dinheiro etc.

Felizmente as condições de vida das Babilônias norte-americanas e os materiais modernos vieram arrancar a arte da habitação à rotina dos estilos. Os poetas da construção tiveram que ceder o lugar aos engenheiros sem entranhas. Estes que antigamente só faziam bobagens porque queriam fingir-se de arquitetos, tiveram que resolver os problemas sérios de engenharia que apresenta um arranha-céu, um hangar para dirigíveis, um frigorífico, e como a tarefa não era sopa, tiveram eles que por de lado a boniteza, a poesia, a emoção. Ora, sucedeu inesperadamente que eles criaram uma emoção nova na arte arquitetônica. Ilustração eloquente do conceito estético de que em arte a beleza não deve ser um fim porque é uma consequência. O plano bem estudado e resolvido resultará belo. Como diz a nova escola holandesa, a arquitetura tem que ser construtiva e funcional, isto é, desenvolvendo-se logicamente do interior (função) para o exterior (fachada).

[...] Até no Brasil já se pode pensar em morar, não atrás de uma fachada, mas dentro de uma casa de verdade, planejada de acordo com os elementos e os hábitos de conforto da atualidade (casas de Warchavchik em São Paulo).
Era de toda necessidade. Desde menino que vejo a arte da construção degenerar no Rio para o mais grotesco fachadismo.”

Manuel Bandeira
Diário Nacional, 16 de agosto de 1930

in: BANDEIRA, Manuel. Crônicas inéditas I: 1920-1931. Cosac Naif, 2008.

Postado por Priscyla Gomes



3 Responses to “da finalidade artística, uma crônica”  

  1. fabuloso bandeira!!!
    podiamos ressucitar esse cara…

    • 2 priscyla gomes

      pois é, Felipe…encontrei coisas ótimas.
      confesso que este não era o texto de intenção primeira a ser postado. me rendi. talvez porque sua visão da arquitetura nessa crônica só veio tornar mais interessantes suas passagens sobre a vida urbana carioca, o urbanismo moderno…
      guardadas algumas discordâncias, a distância histórica, a coletânea dá ‘pano pra manga’ de boas discussões.
      quem sabe, de uma série de post temáticos…

  2. dá mesmo.

    a questão do fachadismo é bastante atual.

    Só que os “hábitos de conforto” que o Bandeira tanto parecia admirar parecem ter mudado.

    hehehe


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