“As passagens são a arquitetura da cidade das imagens. Passagens entre pintura e fotografia: pintores que se utilizam de recursos do instantâneo e fotografias que parecem anunciar, em plena era da computação gráfica, uma retomada de técnicas do pictorialismo. Passagens entre pintura, fotografia e cinema. Passagens entre todas estas formas artísticas e a arquitetura, que se confunde com o imaginário da cidade. Grande cruzamento que constitui a paisagem de imagens contemporânea.

Nem perto nem longe, nem passado nem presente. Mas entre uma coisa e outra. Aqui e lá, no filme e na arquitetura, na pintura e na TV. Entre o real e o imaginário, o figurativo e o abstrato, o movimento e o repouso. Entre o visível e o invisível. A paisagem contemporânea é um vasto lugar de passagem.

Essas passagens servem para introduzir outros tempos e espaços. Como antigas galerias parisienses, elas nos conduzem através de outras experiências das dimensões, entre o passado e o presente, o próximo e o longínquo, a pintura e a computação eletrônica. As passagens são o caminho futuro das imagens.

Um território é formado por esse trânsito, por essa permeabilidade generalizada, por esse sistema de interações.
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O princípio desse processo é o movimento, que transforma o ponto em linha. Deleuze definiu assim essa condição: estar no meio, como um mato que cresce entre pedras. Mover-se entre coisas e instaurar uma “logica do e”. Conexão entre um ponto qualquer e outro ponto qualquer. Sem começo nem fim, mas entre. Não se trata de uma simples relação entre duas coisas, mas do lugar onde elas ganham velocidade. O “entre-lugar”. Seu tecido é a conjunção “e… e… e”. Algo que acontece entre elementos, mas que não se reduz aos seus termos.
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Armam-se as “passagens pintura-escultura, escultura-arquitetura” que marcam a atualidade do barroco [Brissac afirma que esta disposição contemporânea encontra no barroco uma analogia, “o barroco é uma transição”, “uma coisa exprime a outra, reflete a outra, em total correspondência, em permanente interação”]. Ele instaura uma interação entre as diferentes artes que é tipicamente contemporânea: em extensão, tendendo cada arte a se realizar na seguinte. Um encadeamento em que cada lance amplia o espaço da arte.
O mesmo dispositivo que – centrado nos processos eletrônicos – agencia as imagens contemporâneas. O pintor torna-se um urbanista: não é esta síntese de todas as possibilidades de entrecruzamento entre todos os suportes, todas as escalas, todas as formas? O anacrônico e o moderno, a superfície e o volume, o estático e o dinâmico, o virtual e o real. É próprio da modernidade “se instalar entre duas artes”.
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Essas passagens são constitutivas da atualidade das imagens. Entre foto, cinema e vídeo – além da pintura e arquitetura – produz-se uma multiplicidade de sobreposições e configurações. O “entre-imagens” é o espaço de todas as passagens. Ao mesmo tempo absolutamente visível e secretamente imerso nas obras, flutuando entre dois fotogramas ou entre duas telas, entre duas espessuras de matéria ou entre duas velocidades, ele opera na intermediação da imagens. O entre-imagens é o lugar onde a paisagem contemporânea efetivamente se constitui.”

in: BRISSAC, Nelson. “Passagens da imagem: pintura, fotografia, cinema e arquitetura”

post enviado por Priscyla Gomes



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