As Ilhas Afortunadas [ou: para pensar em viagens e naquilo que procuramos quando não estamos procurando nada em especial]
Abaixo, o texto de Jean Grenier chamado “As Ilhas Afortunadas”, incluído em seu primeiro livro, “As Ilhas”. Leio com interesses variados e um pouco dispersos, e compartilho por acreditar que o texto funciona um pouco como as viagens mencionadas pelo autor; cada um encontrará no que se apoiar, dependendo do que trouxer na bagagem.
“Perguntam-te por que se viaja. A viagem pode ser para os espíritos que carecem de uma força sempre intacta, o estimulante necessário para despertar sentimentos que na vida quotidiana não se manifestavam. Viaja-se, então, para recolher, num mês, num ano, uma dúzia de sensações raras, eu ouço aquelas que podem suscitar em você este canto inferior sem o qual nada do que se experimenta vale.
Passa-se dias em Barcelona, visitando igrejas, jardins, uma exposição e de tudo isso somente permanece o perfurme das flores opulentas da Rambla San José. Valeria, portanto, a pena dar-se ao trabalho? É claro que sim.
Quando se leu Barrès, imagina-se Toledo sob um aspecto trágico e procura-se emocionar-se olhando a catedral e os Greco. Vale mais a pena vagar descuidadamente ou sentar-se à beira das fontes para ver passar as mulheres e as crianças. Nas cidades como Toledo, Siena, eu contemplei por muito tempo as janelas gradeadas, os pátios interiores onde fluem as fontes e as paredes espessas e altas como muralhas. A noite, eu passeava ao longo dessas muralhas cegas como se eleas devessem ensinar-me alguma coisa. O que há por atrás desses obstáculos? Mas precisamente esses obstáculos sempre presentes, esse msitério sempre suspeito, qual nome dar a tudo isso senão o de amor? De certa espécie de amor? (Não aquele dos heróis de George Sand, evidentemente)
Portanto, pode-se viajar não para evadir-se, algo impossível, mas para se encontrar. A viagem torna-se então um meio, como os jesuítas empregaram os exercícios corporais, os budistas o ópio e os pintores o álcool. Uma vez que se serviu disso e que se atinge o limite, empurra-se com o pé a escada que te serviu para subir. Esquece-se as jornadas enjoativas da viagem marítima e as insônias do trem quando se chegou a se reconhecer (e para além de si mesmo outra coisas, sem dúvida), e este “reconhecimento” não está sempre no fim da viagem que se faz: na verdade, quando ele ocorre, a viagem está concluída.
É bem verdade, portanto, que nessas imensas solidões em que um homem deve atravessar do nascimento à morte, existem alguns lugares, alguns momentos privilegiados em que a visão de uma região age sobre nós, como um grande músico sobre um instrumento banal que ele revela, falando propriamente a si mesmo. O falso reconhecimento é o mais verdadeiro de todos: reconhece-se a si mesmo: e quando diante de uma cidade desconhecida a gente se admira como diante de um amigo que se tinha esquecido, é a imagem verídica de si mesmo que se contempla.
As grandes paisagens luminosas da Toscana e da Provença, onde se vê planícies que se tem dificuldade de medir com o olhar e onde, no entanto, todos os detalhes estão escritos, essas paisagens na Lorraine são propícias entre todas para essas revelações. Um amigo me escreveu que, após um mês de agradável viagem, ele se encontrava em Siena e, adentrando às duas horas da tarde no quarto que lhe destinavam, as persianas abertas, ele viu um imenso espaço onde turbilhonavam árvores, céus, videiras e igrejas, esta admirável natureza que Siena domina com tanta superioridade e que lhe parecia estar vendo por um buraco de fechadura (seu quarto, nada mais que um ponto negro); então ele se pôs a soluçar. Não por admiração, mas por impotência. Ele compreendeu (pois eu não duvido que fosse mais um abalo do espírito do que do coração), ele compreendeu tudo o que não poderia fazer, a vida medíocre à qual estava condenado a suportar, viu realizado, num instante, o vazio de suas aspirações, de seus pensamentos, de seu coração. Ofereciam-lhe tudo e ele não podia apropriar-se de nada. Ele disse-me que neste limite tomara consciência, pela primeira e última vez, do caráter definitivo de uma separação que imaginava até aqui como provisória e que, todavia, ele tinha sido o único a querer[1].
É verdade que certos espetáculos, a baía de Nápoles, por exemplo, os terraços floridos de Capri, de Sidi- Bou-Saïd, são solicitações perpétuas para a morte. O que devia nos preencher aprofunda em nós um vazio infinito. Nas mais belas paisagens, nas mais belas costas estão colocados cemitérios que não estão lá por acaso; vê-se aí o nome daqueles que, demasiado jovens, foram tomados de pânico diante de tanta luz projetada neles mesmos. Em Sevilha, se não se preocupar com os palácios, as igrejas, o Guadalquivir e o resto, a vida é agradável por muitas razões; porém só se sente verdadeiramente a sedução profunda da terra quando, querendo subir ao topo da Giralda, o vigia te impede: “É preciso ir em dois, diz ele. – E por que então? – Há excesso de suicídios”.
A beleza das grandes paisagens não é proporcionada ao poderio do homem. Se os templos gregos são minúsculos, é porque eles foram construídos como refúgios a homens que teriam perdido uma luz sem esperança, um espetáculo sem medida. Por que se diz de uma paisagem ensolarada que ela é alegre? O sol o isola e o ser se encontra face a face com ele mesmo – sem nenhum ponto de apoio. Noutra parte qualquer, o céu interpõe suas nuvens, seus nevoeiros, seus ventos, suas chuvas e oculta ao homem sua degradação sob o pretexto de ocupações e de preocupações… Eu admiro a descrição que faz Rosseau de suas alegrias na ilha Saint-Pierre:
“As épocas das mais doces delícias e dos prazeres mais vivos não são aquelas cuja lembrança me atrai e me toca mais: esses breves momentos de delírio e paixão, por mais vivos que possam ser, entretanto não são, pela sua própria vivacidade, senão pontos bem disseminados na linha da vida. Eles são demasiado raros e rápidos para compor um estado; e a felicidade que meu coração lamenta não é composta de instantes fugazes, mas de um estado simples e permanente, que não tem nada de vivo em si mesmo, mas cuja duração aumenta o encanto, a ponto de aí encontrar enfim a suprema ventura”.
Mas a suprema ventura que Rousseau crê ter encontrado no lago de Bienne e que ele descreve tão bem como um “estado simples e permanente” não pode ser considerada antes um entorpecimento? Rousseau tenta esconder sua miséria e sua morte. Parece-me que a suprema ventura para algumas almas (as quais só posso admirar) não se separa do trágico: ela está no seu apogeu. No momento em que o tumulto de uma paixão atinge seu paroxismo, neste exato momento se faz na alma um grande silêncio.
Para tomar um exemplo próximo, o silêncio de Julien Sorel em sua prisão. É também o silêncio do peregrinos de Emaús. É o silêncio da grande manhã de Pentecostes. Eu não vejo senão Rembrandt que tenha sabido exprimi-lo inteiramente. Sente-se realmente que num segundo após esse instante, a vida vai retomar seu curso – mas esperando, ela é interrompida por algo que a ultrapassa infinitamente. O quê? Não sei. Este silêncio é povoado, não é a ausência de barulho, nem de emoção.
Quando eu vivia em Nápoles, eu ia todas as manhãs ao palacete Faldina, que se inclina para o golfo, e vadiava fumando cigarros até a hora em que soava o meio-dia. Estas horas de ócio me preencheram mais que as horas febris de Paris. Que pena que num cenário tão pungente, todo mundo, ou quase, estaja nesse século a trabalhar. Que se passe em Paris, em Londres, ainda passa. Mas por toda a parte onde reinam perpetuamente o sol e o mar, é preciso contentar-se em usufruir, sofrer e exprimir-se. Para que serve remexer a lama do planeta quando se permanece no centro das coisas? E quando lentamente soavam os toques do meio-dia e ribombava o canhão do forte Saint-Elme, um sentimento de plenitude, não um sentimento de felicidade, mas um sentimento de presença real e total, como se todas as fissuras do ser estivessem obstruídas, apoderava-se de mim e de tudo à minha volta. De todos os lados afluíam torrentes de luz e de alegria que, de fonte em fonte, caíam para se condensar num oceano sem limites. Neste momento (o único), eu me aceitava pela simples adesão de meus pés ao solo, de meus olhos à luz. E no mesmo instante sobre todas as margens do Mediterrâneo, do alto de todos os terraços de Palermo, de Ravello, de Ragusa e de Amalfi, de Argel e de Alexandria, de Patras, de Istambul, de Esmirna e de Barcelona, milhares de homens estavam como eu, retomando seu fôlego e dizendo: Sim. E eu pensava que se o mundo sensível não fosse senão um leve tecido de aparências, um véu de quimeras volúveis, que à noitenós rasgávamos e que nossa dor tenta inutilmente apagar, existem contudo homens, os primeiro a sofrer com isso, que refazem esse véu, reconstroem estas aparências e fazem retomar a vida universal que, sem este arrebatamento quotidiano, cessaria em algum lugar como uma fonte perdida no campo.
Falam-me, eu falo a mim mesmo de caminho a prosseguir, de obra a criar… um objetivo enfim, ter um objetivo. Mas essas instâncias não atingem o que há de profundo em mim. O objetivo, eu o atingi em alguns minutos e novamente me parece (esperança quase sempre frustrada) que eu não posso atingi-lo. Meu objetivo não depende do tempo.
E, contudo, não pude atingi-lo senão nas mais humildes condições e por um completo efeito da graça. Assim, um dia, tendo subido a pé com um amigo até Ravello, que domina o Mediterrâneo com seus palácios normandos e bizantinos, eu conheci, sem que de maneira alguma estivesse preparado, uma plenitude. Estendido de bruços sobre as lajes do terraço Cimbrone, eu me deixava penetrar pelos jogos da luz sobre os mármores. Meu espírito se perdia nos jogos dessa transparência, desta resistência, depois se reencontrava por inteiro. Parecia-me assistir a esse espetáculo diante do qual se enganavam todas as inteligências: a um nascimento, o meu. Um outro ser? Por que um outro? E parecia-me que eu começava somente então a existir.
Eu ganhei, repetia-me naquele dia (era Natal de 1924). Eu ganhei. Todo o mundo perde e em seguida tenta reaver, mas em vão. Eu, nessa hora que eu sei, neste local que eu posso dizer, eu ganhei de uma vez tudo o que podia ser ganho. Não sei se me faço entender bem: mas estou certo de que ganhei tudo de uma vez, sem nenhum mérito. Pelo mérito adquire-se todo tipo de coisas; mas num único minuto pode-se realmente?…
Eu sinto que o que eu escrevo aqui é profundamente imoral. Concorda-se em condenar as loterias. Odeia-se o acaso, organiza-se o futuro.
Após esses momentos que eu contei, pode-se viver? Sobrevive-se, é tudo, esperando um novo momento imprevisível. Mas o que importa, uma vez que me aconteceu de ganhar? Vocês sentem bem a força desta palavra? Do zero você passa para o infinito. Eu ganhei. O que vocês falam do futuro? Mas depois, dirão vocês, recai-se no nada. – Sem dúvida, mas resta este fio sutil de luz que vos persegue até no seu sono e que nos adverte que outrora… E por que num milésimo de segundo não seria eu precipitado novamente para o fundo deste ser que me é mais inferior que eu mesmo?
Flores que flutuais no mar e que se percebe no momento em que menos se pensa nisso, algas, cadáveres, gaivotas adormecidas, vós que sois rompidas com a roda da proa, ah, minhas ilhas afortunadas! Surpresas da manhã, esperanças da noite – vos reverei ainda algumas vezes? Vós sozinhas que me liberais de mim e em quem eu posso me reconhecer. Espelhos sem aço, céus sem luz, amores sem objeto”.
In: Jean Grenier, As Ilhas, São Paulo: Perspectiva, 2009 (do original em francês, 1959)
[1] Os seres mais frágeis têm tentações contrárias àquelas dos santos: eles são tentados a recusar.
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