Guerra das Artes

20jul11

Na arte existe a pintura, a escultura, a gravura, o desenho, a performance, o vídeo, a arte digital, a instalação. Certo? Isso não parece tão óbvio para artistas e curadores. Enquanto uma grande exposição, como a Bienal de São Paulo, mistura diversas técnicas e suportes; marginaliza as chamadas artes digitais, ou arte em mídias digitais ou em linguagem eletrônica, praticamente a excluindo.

Por outro lado, outras instituições e museus se especializaram nesse tipo de produção, reforçando a divisão entre as artes físicas e analógicas e a arte digital. Trata-se de uma verdadeira disputa de territórios.

Eis aqui alguns aforismos sobre essa arte e a guerra das artes contemporâneas:

1- O termo “Arte e Tecnologia”, empregado por um grupo de artistas e organizações, para designar as artes em mídias digitais, é um termo completamente equivocado. Não existe arte sem técnica e, portanto, sem tecnologia. Os dois termos inclusive podem se confundir etimologicamente. Arte como ofício é o mesmo que técnica. A expressão “Arte e Tecnologia”, pela sua total falta de sentido histórico e conceitual, contribui para a segregação e preconceito – sobretudo por parte de acadêmicos e setores conservadores da arte – contra um determinado tipo de arte que, a despeito, dessa denominação absurda, dispõe de uma produção sólida. É fundamental que esse termo seja abolido.

2- As obras em mídias digitais são extremamente caras de serem produzidas porque necessitam de muitas horas de trabalho e envolvem um grupo interdisciplinar. Os artistas que produzem arte digital normalmente apenas orquestram e concebem um projeto que é executado por vários profissionais, como programadores, arquitetos, engenheiros e instaladores. Em contra partida, as obras digitais, são normalmente, salvo grandes instalações-digitais, muito baratas e simples de serem reproduzidas e transportadas. Levar um artefato digital pequeno ou um software para um país distante é muito mais simples do que transportar uma enorme escultura de mármore, por exemplo.

3- Não existem artistas digitais, ou artistas que produzem exclusivamente arte em mídias digitais. Existem artistas. Mesmo que eles possam produzir a vida inteira apenas obras digitais eles utilizam isso apenas como suporte, como mídia. É certo que a mídia, ou a própria criação dela, é um discurso. Mas a obra digital não sobrevive apenas com seu suporte, a linguagem pela linguagem. Outra camada desse discurso contém elementos poéticos e narrativos. É como uma relação de forma e conteúdo. Da mesma maneira, um escultor é antes de tudo um artista. Esse conceito não é claro para alguns artistas que produzem normalmente obras digitais: mesmo quando fazem uma instalação ou uma escultura interativa (que obviamente tem técnica e ciência, como toda arte) chamam essa instalação de arte digital (senão “Arte e Tecnologia”). Essa postura, novamente, é nefasta para a difusão dessa mídia.

4- Grandes instituições históricas, como são as Bienais, são ignorantes em artes digitais. Muitos curadores, que representam setores retrógrados da arte, desconhecem as obras digitais e a recente importância que elas adquiriram ao longo das últimas décadas. Esses curadores sequer consideram arte digital como arte. Acham que é um tipo de brincadeira ou playground. Confundem arte digital com arte interativa e acham que a interatividade, inexplicavelmente, pode ser prejudicial para a arte. Para algumas pessoas, isso pode soar absurdo e distante. Mas sim. Este pensamento rege as principais instituições do mundo: arte digital não é arte. Normalmente, os curadores discordam da frase que abre esse texto.

5- Assim, mesmo com uma produção expressiva de arte digital, tanto quantitativamente e, sobretudo, qualitativamente, as mídias eletrônicas se mantêm distante de muitas exposições de arte contemporânea. As tradicionais mídias da arte são privilegiadas pelas escolhas curatoriais. Por trás disso, além de um preconceito, há outro aspecto, econômico. As instituições e os curadores são regidos pelo mercado e o mercado tem dificuldade de fazer da arte digital um produto.

6- O vídeo é uma forma de arte digital, que por seu volume e seu histórico relativamente longo, se tornou um gênero autônomo. O vídeo tem algumas décadas de existência e dispõe de um espaço cativo na arte contemporânea, inclusive com maior penetração no mercado. O grande problema é que o vídeo está extinto ou praticamente extinto. A década atual é provavelmente a última a ter uma produção expressiva de vídeo-arte. Por causa do desenvolvimento técnico das ferramentas de captura, o vídeo será, em breve, totalmente substituído pelo cinema, ou pelo cinema-arte ou cinema-instalação. Câmeras relativamente baratas como a Canon 5D ou 7D são hoje capazes de produzir imagens com qualidade igual ao do cinema. Porém, a técnica do vídeo vale pouco para esse novo cinema, de bolso. Trata-se de outra linguagem.

7- As instituições retrógradas e conservadoras que ignoram as artes digitais não repararam que as mídias eletrônicas, para além do estreito círculo das galerias, significam sua própria redenção. As exposições segregacionistas de arte digital (que também, infelizmente, como reação, existem) trazem multidões para museus e centros culturais. É um tipo de arte, inexplicavelmente, muito popular. O público é heterogênico: jovens artistas; estudantes secundaristas; estudantes universitários; nerds, geeks e afins; crianças; além de uma parcela do público tradicionalmente interessado por arte. É muito comum formarem filas nessas exposições, coisa vista aqui no Brasil apenas em grandes mostras de mestres modernos, nunca em arte contemporânea. Mesmo com um orçamento relativamente baixo, a arte digital consegue um grande espaço na mídia e muito público. A arte é comunicação e em tempos atuais a comunicação em grande escala tem um valor social.

8- As multidões que são arrastadas pelas artes digitais de alguma forma se identificam ingenuamente com o espaço expositivo. Gostam da ideia eventual de interação. Gostam de se relacionarem com computadores, especialmente computadores personalizados, não-convencionais. Alguns podem dizer que esse é um tipo de público “pouco qualificado”, ignorante em arte, que “não entende o que vê”. Esses visitantes podem, em um breve momento, serem capturados por uma boa obra e por ela transformados. É isso que, de alguma forma, se espera da arte.

9- São Paulo, um dos principais polos culturais da América Latina, está vivendo um processo atípico interessante. Sobretudo pela assustadora qualidade artística das últimas Bienais, referência institucional de arte na cidade, o eixo principal de grandes exposições, do ponto de vista público, midiático e da comunidade artística e crítica internacional, está lentamente sendo voltado para o FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica). A Bienal adquiriu, não sem motivo, uma fama de conservadora e reacionária. O FILE é uma exposição menos hermética, aberta para novas mídias, que desenvolve um trabalho consistente durante os últimos anos. O nome, Linguagem Eletrônica, ainda é problemático: nem todas as obras usam essa linguagem e a mistura de mídias, ainda tímida, não é encarada como um discurso. A última edição do FILE, inaugurada em Julho de 2011, está longe de ser a melhor edição, porém a comparação com a Bienal de 2010 é inevitável. Que o público e a crítica tirem suas próprias conclusões!

 

Post escrito e enviado por Gabriel Kogan



2 Responses to “Guerra das Artes”

  1. …”O mercado de Arte não esta pronto para era digitall…” comentario de Edmond Couchot – Professor de arte da Universidade de Paris. Meditando seu texto lembrei me de Couchot realmente estamos a margem da arte contemporanea. Sou artista plastico e gostaria de conversar com vc porque admirei sua coragem em tecer comentarios verdadeiros e pontuais sobre a arte digital. Moro no Rio de Janeiro com atelie em Itaipava. As galerias nao aceitam nossa arte e dizem que minha arte nao e contemporanea. Gabriel Kogan fica um abraço e tenho bastante interesse em participar desta discussao.

  2. 2 Gabriel Primeiro

    Muito interessante a forma na qual você consegue mostrar os dois lados de uma “nova” arte.
    Deixo aqui também o comentário de que seus textos estão a cada momento melhores.

    Parabéns


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